Reproduzo, a seguir, a matéria de Luigi Poniwass para a Gazeta do Povo, falando de um assunto que nos interessa, como grandes admiradores de rock e bandas internacionais. Muitas vezes temos que nos deslocar para estados vizinhos quando desejamos ver algum show, pois nossa cidade, embora com locais que possibilitariam tais eventos, acaba ficando de fora do circuíto de shows pela falta de estrutura e burocracia para reabrir o maior e melhor local onde esses eventos poderiam acontecer: a Pedreira Paulo Leminski.
A banda britânica Oasis se apresentou no estacionamento do Expotrade, em Pinhais, no dia 10 de maio de 2009. A estrutura do show foi bastante criticada pelo público que pagou caro para assisti-lo
Curitiba perdeu a relevância?
Segundo produtores, desinteresse do público, burocracia e falta de espaços desestimulam a contratação de grandes shows
Luigi Poniwass
A derrocada da capital paranaense no mercado dos grandes eventos musicais começou com a interdição da Pedreira Paulo Leminski, em 2008, mas teria se agravado por outras razões – principalmente o desinteresse do público e a indiferença da administração municipal, que se reflete no excesso de burocracia e na demora para providenciar uma alternativa à Pedreira. É o que dizem os principais produtores estabelecidos na cidade, que se mostram pessimistas em relação ao futuro.
“O grande problema de Curitiba hoje é o público”, afirma Fábio Neves, um dos sócios da Seven Shows, que já trouxe artistas como Bon Jovi, Avril Lavigne, Evanescence, Black Eyed Peas e Pearl Jam, entre outros. “É um público de modinha, que paga para ver dupla sertaneja e não vai ver um grande artista internacional. Prova disso é que o Curitiba Country Festival bota 40 mil pessoas no Expotrade, enquanto o Scorpions não leva oito mil.” Para ele, a fama de capital cultural não condiz com a realidade: “Curitiba parece uma cidade grande culturalmente, mas não é. Espetáculos que fazem sucesso no Brasil inteiro, aqui vão mal de público.”
Isso explicaria a falta de shows no Couto Pereira, para Neves o melhor espaço para grandes eventos na cidade hoje. “O Couto Pereira é excelente, principalmente por causa daquela meia-lua de gramado atrás do gol, que permite que toda a estrutura do palco seja montada fora da área de jogo”, considera. “Mas, para fazer um show lá, eu precisaria ter a garantia de levar de 30 mil a 40 mil pessoas. E quem atrairia tanta gente?”
Outro obstáculo para a vinda dos grandes shows, segundo ele, seria o inchaço no mercado local de produção: “Nos últimos tempos, a gente liga para o empresário de um artista e ele diz que já tem cinco pedidos para Curitiba, cada um oferecendo mais dinheiro. O cara fatura R$ 200 e paga R$ 220”, compara.
Mesmo assim, ele defende a criação de um espaço para grandes eventos na cidade. “Tem que investir numa área, com uma estrutura decente, ou deixar na mão da iniciativa privada”, acredita. “Uma solução seria o Pinheirão. Negociar com a Federação Paranaense de Futebol, deixar abrir e, com o dinheiro da locação, ir abatendo a dívida.” Já o projeto em estudo pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), que prevê uma área no futuro Parque Linear do Iguaçu, na região do Zoológico de Curitiba, é visto com restrições: “Eu não acho adequado. Tenho um conhecido que trabalha na polícia que diz que, depois das 18 horas, nem a Rone [Rondas Ostensivas de Natureza Especial, tropa de elite da Polícia Militar] entra no Parque Iguaçu”.
Patrick Cornelsen, da Planeta Brasil – representante no Paraná da DC7 Produções, que negocia os shows de Roberto Carlos e trouxe o Oasis no ano passado –, faz coro com Fábio Neves na falta de espaço e de interesse do público, mas critica a própria categoria: “Começou com o fechamento da Pedreira, depois houve uma sequência de fracassos de público em outros espaços, mas também falta coragem e interesse dos produtores para trazer os shows”, observa. “No começo do ano eu tinha comprado o Moby para Curitiba. Era um show para 10 mil pessoas, mas tive que fazer no Curitiba Master Hall, para menos de mil.”
Mac Lovio Solek, da Prime Promoções e Eventos, que realizou o show dos Scorpions no Expotrade, é o retrato do desânimo: “Curitiba não tem saída. Depois que me negaram a autorização para fazer o show dos Scorpions no estacionamento da Arena, respeitando o horário da Lei do Silêncio, sem justificativa nenhuma, eu não acredito em mais nada”.
Ele aponta a burocracia como um dos maiores entraves para a atividade. “Você chega na Cage [Comissão de Análise de Grandes Eventos], da Secretaria Municipal de Urbanismo, e tenta falar com o responsável, mas ele está de férias e não informam o substituto; aí você descobre quem é o presidente, protocola um ofício, espera um tempão, e é informado de que o seu ofício foi indeferido. Pergunta por quê, e eles não te falam; você pede então uma justificativa por escrito – afinal você formalizou o pedido dessa maneira –, e eles não dão ou informam que vai demorar 30 dias, sabendo que o show é dali a 20 dias”, relata. “Para que serve essa comissão? Por isso a gente só pode fazer eventos hoje fora de Curitiba. Não existe alternativa.”
Outro lado
A respeito da Comissão de Análise de Grandes Eventos (Cage), a prefeitura de Curitiba informa que ela congrega representantes da Polícia Militar, corpo de Bombeiros, Diretran, Procuradoria Geral do Município, Fundação Cultural de Curitiba e da Secretaria Municipal de Urbanismo. A comissão deve avaliar uma série de itens antes de liberar um evento, como procedimentos de segurança, saídas de emergência, vias de acesso e o trânsito no entorno, entre outros. “Quando um produtor protocola um pedido na comissão, ele tem consciência de todas essas exigências, mas às vezes pede a autorização para um show dali a uma semana”, explica a assessoria da prefeitura, que nega que a comissão se recuse a dar justificativas formais: “É improvável que uma comissão composta por órgãos sérios, com esse grau de responsabilidade, não forneça um documento e uma explicação oficial para suas decisões”.